Quando decidi morar fora do Brasil, diversos amigos vieram conversar comigo inconformados. Visivelmente preocupados e com a melhor das intenções, me perguntavam por que eu estava abandonando tudo depois de construir uma carreira bem sucedida na fotografia de casamento no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro. Muitos talvez ainda se perguntem até hoje.
Confesso que na época até eu ficava bolada com isso. Quer dizer, queria viajar e viver em outros lugares, mas também não queria perder o que havia construído no Brasil. Isso me consumia e até pouco tempo ainda me preocupava. O Vinicius (marido), por outro lado, sempre me tranquilizava e explicava que ia ficar tudo bem, sempre citando um ditado chinês que diz mais ou menos assim: para experimentar novos chás, é preciso esvaziar a xícara. Em outras palavras, às vezes é preciso abrir mão de algumas coisas para ter a oportunidade de experimentar outras.
Algo muito interessante aconteceu nesses mais de dois anos viajando. Visitei dezenas de países e me encantei com essa vida nômade. Não consigo mais me imaginar vivendo em apenas um único lugar. Cada novo país que conhecemos nos proporciona novas e maravilhosas experiências. É uma vida tão ativa, tão rica e tão especial, que tenho certeza que não sou eu mesma vivendo tudo isso.
Porém, talvez o mais fascinante mesmo foi o que aconteceu no Brasil. Nesses últimos dois anos, continuei fotografando casamentos no Rio e em outras partes do Brasil normalmente. Não só continuei tendo casamentos para fotografar nos poucos meses que passei no Brasil nesses últimos dois anos, como tais casamentos foram lindos e absolutamente deliciosos de fotografar.
Em outras palavras, mesmo passando a maior parte do tempo fora do Brasil, continuei atuando no Brasil normalmente, nos meses que escolhi estar lá. Não deixei de ter trabalho por ter optado estar fora do Brasil na maior parte do tempo. Apenas passei a fotografar menos eventos, porque fico pouco tempo no Brasil.
Ou seja, o maridão tinha razão. No fim das contas, deu tudo certo. Nós passamos a ter uma vida imensamente mais rica, e continuei a ser procurada pelas noivas no Brasil. Não só isso, continuei a fotografar casamentos lindos só que com uma grande diferença. A minha fotografia se transformou completamente por conta das viagens.
Viajar é, sem dúvida, a melhor maneira que existe de treinar fotografia. A riqueza de desafios e situações é imensa. É muita coisa nova. São ideias e mais ideias pipocando por todos os lados. Viajar alimenta a alma e a mente e, claramente, nos faz muito mais criativos.
Hoje estou satisfeita com a minha habilidade fotográfica como jamais estive. Esse sentimento de plenitude e de alinhamento com essa arte que tanto amo é um fruto evidente dessa decisão aparentemente maluca de sair pelo mundo.
Passados esses dois anos, percebo que poucas coisas são tão perigosas quanto o sucesso, ou a percepção de sucesso. Algumas pessoas acham que construí uma carreira bem sucedida. E isso é verdade em grande parte. Se eu comprasse essa ideia ao ponto de começar a me sentir a rainha da cocada preta, sabe o que ia acontecer? Nada. Eu nunca ia sair do lugar e tentar nada novo.
Quando a pessoa está no topo ela tem medo. Porque ela acha que tem alguma coisa a perder. Se você está no topo e não tem mais para onde subir, a única opção possível é descer, certo? E aí vem aquela história de que ser pobre não é necessariamente grave. Mas, ser rico e depois ficar pobre é devastador.
Se tem uma coisa nessa vida que nos atrapalha é justamente esse tal de apego. No caso, o apego ao sucesso, ou ao sentimento de sucesso, é o que imobiliza a pessoa. É a tal história de que, em time que está ganhando não se mexe. O apego à aparente vitória impede a mudança.
Como mencionei antes, alguma coisa eu conquistei na minha carreira, por certo. Tive medo de perder isso? Pode apostar. Felizmente consegui lidar com esse medo e seguir adiante.
Hoje percebo como é bobo esse apego a um aparente sucesso. O mercado do Rio é excelente, eu adoro fazer casamentos, mas essa é apenas uma parte da minha vida. Uma parte absolutamente importante, sem dúvida. Ainda assim, uma parte.
A vida é muito maior que isso, desde que estejamos abertos a outras possibilidades. Não tivesse eu acreditado nisso, não teria visitado tantos lugares incríveis e conhecido tanta gente legal pelo mundo. Porém, ainda pior, não teria visualizado as inúmeras possibilidades que hoje percebo, simplesmente porque me permiti enxergá-las.
Continuo amando a fotografia de casamento e me dedicando a ela de corpo e alma, buscando ser melhor a cada dia. Continuarei a fazer inúmeros casamentos no Rio de Janeiro e outras partes do Brasil todos os anos. Mas, também cuidarei de outras questões. Coisas novas, que me encantam, que também me fazem sonhar e que me ensinam permanentemente a deixar o apego de lado, para experimentar novos chás.
A propósito, falando em chás, aqui em Istambul estamos no paraíso. A cada visita ao Mercado Egípcio voltamos para casa com mais um monte de saquinhos de chá, cada um mais gostoso que o outro.
E você, a que está apegado agora que te impede de mudar e evoluir?
Termino o post com algumas fotos de um casamento que fotografei em Veranópolis, RS, no ano passado. Uma experiência absolutamente incrível, totalmente fora da zona de conforto minha, porque não conhecia o lugar, nem os noivos, mas que, no fim, me deixou com vontade de mais viagens fotográficas por esse imenso Brasil.

















































































































































































































